sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Cidades

Benjamin Constant reúne diferentes culturas no Amazonas e preserva memória do Alto Solimões

Benjamin Constant, no Amazonas, reúne diferentes culturas formadas pela presença indígena, pela vida ribeirinha, pelos ciclos econômicos da região e pela proximidade com Peru e Colômbia. A história do município passa pelo antigo seringal Remate de Males e se expressa em línguas, festas, agricultura, artesanato e costumes preservados no Alto Solimões.

Benjamin Constant, no sudoeste do Amazonas, é um dos municípios que melhor expressam a diversidade cultural do Alto Solimões. A formação da cidade está ligada à presença ancestral de povos indígenas, à circulação de comunidades ribeirinhas, aos ciclos econômicos da Amazônia e à posição estratégica em uma região próxima às fronteiras com Peru e Colômbia.

Essa combinação aparece no cotidiano, nas formas de ocupação do território, nas línguas faladas, na produção agrícola, no artesanato, na religiosidade e nas festas populares. A identidade benjaminense não é resultado de uma única tradição, mas de diferentes grupos que se relacionaram ao longo do tempo e continuam transmitindo conhecimentos entre gerações.

Uma história formada entre rios e floresta

O território onde hoje está Benjamin Constant era habitado originalmente por diversos povos indígenas, com destaque histórico para os Tikuna. Registros sobre a região também mencionam os contatos estabelecidos a partir do fim do século 17, quando missões religiosas ligadas aos jesuítas espanhóis criaram aldeamentos às margens do rio Solimões.

A formação do município, porém, ganhou novo impulso com a economia da borracha. O povoamento que deu origem à cidade esteve ligado ao seringal Remate de Males, localizado às margens do rio Itacoaí, afluente do Javari. O local se tornou ponto de circulação de trabalhadores, comerciantes e viajantes em uma área marcada pela dependência dos rios como vias de transporte.

Em 29 de janeiro de 1898, o território foi desmembrado de São Paulo de Olivença. O município passou por mudanças administrativas nos anos seguintes: em 1901, voltou a ser incorporado a São Paulo de Olivença e, em 2 de setembro de 1904, recuperou a autonomia. A sede também foi transferida, posteriormente, para o povoado de Esperança, que se consolidou como a área urbana atual.

A trajetória histórica é detalhada pela Prefeitura de Benjamin Constant e por documentos de caracterização municipal. O nome Benjamin Constant foi adotado em homenagem a Benjamin Constant Botelho de Magalhães, figura associada ao movimento republicano brasileiro, por sugestão do general Cândido Mariano da Silva Rondon.

Tikuna e Kokama estão no centro da diversidade cultural

A presença indígena é um dos elementos mais importantes da história de Benjamin Constant. No município, destacam-se os povos Tikuna e Kokama, que vivem em comunidades situadas em áreas próximas aos rios, às várzeas e às regiões de terra firme.

Os Tikuna formam um dos povos indígenas mais numerosos da Amazônia e mantêm comunidades distribuídas por diferentes municípios do Alto Solimões. Sua presença em Benjamin Constant está associada a aldeias, territórios, organizações comunitárias e formas próprias de transmissão de conhecimentos. A relação com os rios, a floresta e os ciclos de cheia e vazante influencia atividades produtivas, deslocamentos e práticas culturais.

Os Kokama também têm presença histórica no município e em outras localidades do Alto Solimões. A trajetória desse povo inclui períodos de invisibilidade étnica e, especialmente a partir da década de 1980, movimentos de reafirmação da identidade cultural e de reconhecimento coletivo. Pesquisas sobre a região registram a presença Kokama em comunidades de Benjamin Constant e destacam a importância da retomada de tradições, da língua e da organização política.

Em 2020, a Funai informou que Benjamin Constant reunia 35 comunidades indígenas ocupadas por povos Tikuna e Kokama. Naquele ano, um casamento coletivo envolveu 800 casais e foi realizado em aldeias da região, com apoio de instituições públicas. O episódio mostrou a dimensão territorial das comunidades e a necessidade de ações que considerem as características culturais e geográficas do município.

Línguas indígenas e transmissão de conhecimentos

A diversidade cultural também se manifesta nas línguas. Um estudo publicado em 2025 identificou Tikuna e Kokama como línguas indígenas remanescentes em Benjamin Constant. A pesquisa ressalta que a manutenção desses idiomas depende da transmissão entre gerações, da formação de professores indígenas, da produção de materiais didáticos e de políticas educacionais adequadas.

A língua, nesse contexto, não é apenas um instrumento de comunicação. Ela guarda nomes de lugares, modos de classificar plantas e animais, narrativas de origem, conhecimentos sobre o território e regras de convivência. Quando uma língua deixa de ser usada, parte desse repertório pode deixar de circular entre os mais jovens.

Por isso, a valorização cultural envolve mais do que a realização de festas ou a exposição de peças de artesanato. Ela também passa pelo direito de ensinar e aprender em línguas indígenas, pela participação das comunidades nas decisões públicas e pelo respeito às formas próprias de organização social.

Agricultura, rios e conhecimentos tradicionais

Em comunidades Tikuna e Kokama de Benjamin Constant, a agricultura está ligada à observação da paisagem e ao manejo dos recursos naturais. Estudos realizados na ilha do Bom Intento e na comunidade Nova Aliança mostram que as famílias organizam suas atividades a partir das condições da várzea, da terra firme, dos igarapés e dos lagos.

As práticas agrícolas combinam produção de alimentos, coleta, pesca e uso de espécies da floresta. O conhecimento sobre períodos de cheia e vazante, tipos de solo, plantas úteis e locais de ocorrência de animais é transmitido principalmente por meio da convivência familiar e comunitária.

De acordo com pesquisa publicada na revista Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, a organização social e econômica dessas comunidades está relacionada ao parentesco, à apropriação comunal de recursos e à reciprocidade. A produção não se limita à lógica comercial: também cumpre funções de alimentação, cooperação e continuidade cultural.

Esse modo de vida ajuda a explicar por que os rios são tão importantes para Benjamin Constant. Eles funcionam como caminhos de deslocamento, áreas de pesca, espaços de trabalho e referências para a memória das comunidades. A geografia do município, portanto, não é separada da cultura; ela participa diretamente da maneira como as pessoas vivem e se reconhecem.

Ribeirinhos, migrantes e a formação da cidade

Além das comunidades indígenas, a população de Benjamin Constant foi formada por grupos ribeirinhos, trabalhadores dos seringais, comerciantes, servidores públicos, religiosos e migrantes de outras partes do Amazonas e do Brasil. Durante o ciclo da borracha, a região recebeu pessoas atraídas pelo trabalho nos seringais e pelo comércio fluvial.

A presença de migrantes nordestinos, registrada na história de manifestações populares do município, contribuiu para a incorporação de novos costumes. Essa influência aparece em hábitos alimentares, formas de trabalho, festas e expressões musicais. Ao mesmo tempo, ela passou a conviver com práticas indígenas e ribeirinhas já estabelecidas.

A localização no Alto Solimões ampliou ainda mais as trocas culturais. A proximidade com Peru e Colômbia favorece a circulação de pessoas, mercadorias, músicas, alimentos e referências linguísticas. As fronteiras nacionais não eliminam os vínculos históricos entre comunidades que vivem em uma mesma região amazônica e dependem de redes fluviais semelhantes.

Festas populares preservam a identidade local

As manifestações culturais de Benjamin Constant também reúnem diferentes referências. Entre elas está o Festival Folclórico Benjaminense, realizado no Centro Cultural Alcino Castelo Branco, conhecido como Bumbódromo. A festa apresenta alegorias, lendas, personagens e elementos associados ao Amazonas e ao Alto Solimões.

O festival tem como um de seus principais símbolos a disputa entre os bois-bumbás Mangangá e Corajoso. O Mangangá, identificado pelas cores verde e branca, surgiu no bairro Cohaban, conhecido como Javarizinho, em 1992. O Corajoso, nas cores vermelha e branca, foi fundado em 1999 e tem origem no bairro Coimbra, segundo informações da prefeitura.

Essas manifestações não devem ser compreendidas apenas como entretenimento. Elas também movimentam associações, artistas, costureiras, artesãos, músicos, produtores culturais e famílias. A preparação das apresentações envolve a transmissão de técnicas, histórias e símbolos que ajudam a construir um sentimento de pertencimento entre os moradores.

Outra tradição de forte presença no município é o festejo de São Francisco de Assis, celebrado com novenas, arraial e procissão. A religiosidade católica convive com práticas populares e com diferentes formas de devoção, compondo uma dimensão importante da vida comunitária.

Artesanato e economia cultural

O artesanato indígena é outra expressão da diversidade de Benjamin Constant. Peças feitas com sementes, fibras, madeira e outros materiais naturais carregam conhecimentos sobre o ambiente e técnicas transmitidas dentro das comunidades.

Em 2019, o Governo do Amazonas registrou a realização de uma rodada de negócios de artesanato indígena em Benjamin Constant. A iniciativa reuniu representantes de municípios do Alto Solimões, comerciantes e povos indígenas interessados em ampliar a comercialização de produtos tradicionais. A ação também mostrou como a cultura pode gerar renda, desde que o trabalho dos artesãos seja valorizado e que a comercialização respeite os direitos e as decisões das comunidades.

O desafio está em equilibrar a geração de renda com a preservação dos significados culturais. O artesanato não é apenas uma mercadoria: muitas peças estão relacionadas à memória, à identidade e aos materiais disponíveis no território. O fortalecimento dessa atividade depende de políticas de apoio, acesso a mercados e proteção contra a apropriação indevida de símbolos indígenas.

Um município marcado pela diversidade

A história de Benjamin Constant mostra que a diversidade cultural do Amazonas foi construída por processos longos, marcados por encontros, deslocamentos, conflitos, adaptações e reafirmações identitárias. A cidade surgiu em uma região indígena, cresceu durante o ciclo da borracha e se tornou um espaço de convivência entre aldeias, comunidades ribeirinhas, moradores urbanos e grupos ligados à circulação na fronteira.

Hoje, a cultura benjaminense pode ser percebida tanto nas grandes festas quanto em práticas cotidianas: no cultivo de alimentos, no uso dos rios, nas narrativas familiares, na língua, na religiosidade, na produção artesanal e na organização das comunidades.

Preservar essa diversidade exige reconhecer o protagonismo dos povos indígenas e das populações tradicionais. Também requer políticas públicas voltadas à educação, à cultura, ao transporte, à proteção territorial e à valorização dos conhecimentos locais. Em Benjamin Constant, diferentes culturas não apenas coexistem: elas participam da formação histórica do município e continuam definindo sua identidade no Alto Solimões.