segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Cidades

Levantamento separa aumento de queimadas da prova de origem da fumaça em Manaus

Dados da NEX Hub de Análises Estratégicas mostram que o Amazonas registrou 65.610 focos de calor entre agosto e setembro de 2026, contra 89.758 no mesmo período de 2023. A queda estadual ocorreu ao mesmo tempo em que municípios próximos de Manaus tiveram aumento nas detecções. O levantamento aponta áreas que merecem acompanhamento, mas ressalta que a origem da fumaça só pode ser confirmada com dados de vento, horário, altitude e imagens das plumas.
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O Amazonas registrou 65.610 focos de calor entre agosto e setembro de 2026, 26,9% menos que os 89.758 contabilizados no mesmo período de 2023. A redução estadual, porém, não ocorreu de maneira uniforme. Enquanto municípios do sul tiveram queda expressiva, localidades próximas de Manaus e do setor leste apresentaram aumento nas detecções.

O contraste é um dos principais elementos do levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas, elaborado com dados do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A análise também considerou mapas meteorológicos do Windy para verificar se a circulação dos ventos era compatível com possíveis trajetórias de fumaça até a capital.

Os mapas apontam possibilidades de transporte de ar a partir de áreas a leste e sudeste de Manaus, mas não confirmam que as partículas produzidas por queimadas nesses municípios tenham chegado à cidade. Para estabelecer essa relação, seriam necessários dados do sentido efetivo dos ventos, do horário das ocorrências, da altitude das correntes de ar e de imagens das plumas de fumaça.

Queda no Estado reúne cenários diferentes

A diferença de 24.148 detecções entre os dois períodos analisados foi influenciada principalmente pela redução em municípios que haviam registrado grande quantidade de focos em 2023. Lábrea caiu de 10.486 para 4.094 registros, baixa de 61%. Em Humaitá, a redução foi de 71,2%, de 5.314 para 1.530 focos.

Canutama passou de 3.644 para 1.013 detecções, queda de 72,2%, enquanto Boca do Acre recuou de 5.080 para 2.107, redução de 58,5%. Também houve diminuição em Novo Aripuanã, Manicoré e Tapauá, com variações negativas de 23,7%, 46,6% e 68,9%, respectivamente.

Apuí seguiu em sentido contrário. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, crescimento de 6,7%, e apresentou o maior total estadual no bimestre de 2026. O resultado contribuiu para mostrar que a queda do Amazonas foi formada por comportamentos distintos entre os municípios.

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE mais ampla que o entorno imediato da capital, o total subiu de 18.231 para 18.980 focos, alta de 4,1%. Na região intermediária de Parintins, o crescimento foi de 3,8%, de 10.290 para 10.686 detecções.

Municípios próximos da capital registram alta

Manacapuru teve o maior aumento absoluto entre os municípios considerados no levantamento. Foram 2.730 focos entre agosto e setembro de 2026, contra 1.230 no mesmo intervalo de 2023. O acréscimo foi de 1.500 detecções, alta de 122%.

Iranduba apresentou a maior variação percentual, ao passar de 192 para 657 focos, crescimento de 242,2%. Em Caapiranga, as detecções aumentaram de 946 para 2.248, alta de 137,6%.

Outras cidades também tiveram crescimento: Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, aumento de 14,7%; Careiro, de 1.236 para 1.442, alta de 16,7%; Manaquiri, de 1.247 para 1.328, crescimento de 6,5%; e Rio Preto da Eva, de 241 para 327, aumento de 35,7%.

Nova Olinda do Norte registrou alta de 29,2%, de 992 para 1.282 detecções. Borba passou de 1.550 para 1.771, crescimento de 14,3%. Em Urucurituba, o aumento foi de 160,8%, de 457 para 1.192 focos.

A própria Manaus teve crescimento no período analisado. Os registros passaram de 490 para 557, alta de 13,7%. Por isso, a avaliação de episódios de fumaça na capital também precisa considerar ocorrências dentro do município, além das áreas vizinhas.

Setor leste aparece como área de acompanhamento

Nas imagens do Windy analisadas pela NEX, os traços de circulação atmosférica no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus apresentam orientação aproximada de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Esse alinhamento é compatível com uma possível circulação de ar do setor leste em direção à região da capital. Se as partículas estiverem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, queimadas localizadas nesse corredor poderiam contribuir para o transporte de fumaça até Manaus.

Itacoatiara ganhou relevância nessa avaliação por estar a leste da capital e ter registrado 252 focos a mais no bimestre de 2026. Outros municípios da mesma área também tiveram aumento. Urucurituba cresceu 160,8%, enquanto Boa Vista do Ramos passou de 690 para 1.022 detecções, alta de 48,1%.

Esses dados indicam localidades que podem ser acompanhadas em uma investigação sobre a fumaça, mas não comprovam a chegada das partículas a Manaus. A confirmação dependeria da combinação entre a posição dos focos, o horário das ocorrências, o sentido dos ventos e a trajetória das plumas.

Possibilidade também é avaliada no setor sudeste

O levantamento considera ainda uma possível contribuição de áreas situadas a sudeste da capital. Entre Borba e Itacoatiara, os mapas apresentam traços de vento em orientação diagonal. Caso o deslocamento ocorra do sudeste para o noroeste, o fluxo poderá favorecer a aproximação de ar vindo dessa direção.

Borba teve aumento de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282. Os dois municípios foram incluídos entre as áreas relevantes para acompanhar essa hipótese.

Autazes e Careiro da Várzea, também considerados na análise geográfica do setor sudeste, registraram redução. Autazes caiu de 4.372 para 2.829 detecções, baixa de 35,3%. Careiro da Várzea passou de 1.603 para 1.428, queda de 10,9%.

A redução não elimina a possibilidade de contribuição dessas localidades em episódios específicos. O transporte da fumaça depende das condições atmosféricas no momento das queimadas, e os dois municípios ainda mantiveram quantidade significativa de registros.

Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal no levantamento de 2026: 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Áreas a oeste exigem outra configuração atmosférica

O aumento registrado em Manacapuru, Iranduba e Caapiranga precisa ser interpretado de acordo com a posição desses municípios em relação a Manaus. As três localidades ficam em setores a oeste e sudoeste da capital.

Para que a fumaça dessas áreas alcance Manaus, seria necessário haver circulação proveniente desses setores ou trajetórias atmosféricas capazes de conduzir as partículas até a cidade. O alinhamento observado nos mapas no corredor leste, portanto, não explica sozinho uma eventual contribuição de Manacapuru ou Iranduba.

A distinção separa duas etapas da análise. Os dados do SIPAM mostram onde os focos cresceram ou diminuíram. Já os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições o ar poderia se deslocar de uma área para outra. Nenhuma das duas informações, isoladamente, define a origem da fumaça.

Histórico de ventos favorece análise do leste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção indica de onde o vento vem. Assim, um vento de leste se desloca do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna relevante a observação de municípios situados a leste e nordeste de Manaus como possíveis áreas de contribuição.

A circulação, contudo, não é constante. Chuvas, variações regionais, brisas fluviais e diferenças entre os ventos próximos da superfície e aqueles em altitudes maiores podem modificar o fluxo. O padrão histórico serve como referência, mas não substitui os dados correspondentes ao momento de cada episódio.

Imagens não medem fumaça nem qualidade do ar

As capturas do Windy utilizadas na análise precisam ser interpretadas de acordo com as camadas exibidas. Uma das imagens está na camada de temperatura, enquanto a outra mostra a acumulação de vento. As cores, portanto, não representam concentração de fumaça ou qualidade do ar.

O indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados. O valor não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos permitem observar o alinhamento do fluxo, mas uma imagem estática não mostra com segurança para qual lado as partículas estão se deslocando. Também não havia indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão nas capturas analisadas.

Além disso, os mapas não demonstram sozinhos que o fluxo representado corresponde às condições atmosféricas existentes durante as queimadas registradas em agosto e setembro de 2026.

Comparação não inclui outubro de 2026

A análise compara apenas agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede a comparação entre trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos, levando o total de agosto a outubro para 121.540 detecções. O mês representou aproximadamente 26,1% do trimestre.

O levantamento também contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação apresentada mede a variação das detecções, mas não determina, isoladamente, a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Focos de calor não equivalem a incêndios individuais

A metodologia soma detecções feitas por satélite e organizadas por município no Painel do Fogo do SIPAM. As informações territoriais do IBGE foram usadas para calcular a densidade de focos por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. A mesma ocorrência pode gerar múltiplas detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

O cruzamento entre os registros e os mapas sustenta a hipótese de que o aumento de focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus pode contribuir para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo com a redução do total estadual.

Para identificar quais municípios contribuíram em cada episódio, será necessário combinar localização e horário das detecções com imagens das plumas de fumaça e trajetórias do ar em diferentes altitudes.