O ciclismo vem ocupando novos espaços nas cidades do Amazonas. A bicicleta aparece ao mesmo tempo como meio de transporte, alternativa de lazer, prática esportiva, ferramenta de saúde e oportunidade de geração de renda. Em Manaus, projetos de ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e serviços de aluguel aproximam o pedal da rotina urbana. No interior, iniciativas voltadas ao turismo e obras de requalificação começam a criar condições para que a bicicleta também faça parte da paisagem das cidades.
O movimento ainda ocorre de forma desigual. A infraestrutura cicloviária amazonense permanece concentrada em poucos trechos e enfrenta desafios relacionados à segurança, à integração entre rotas e à convivência com carros, motocicletas e ônibus. Mesmo assim, a abertura de novos caminhos indica uma mudança na forma de pensar a mobilidade e o uso dos espaços públicos.
Manaus concentra a maior parte da estrutura
Na capital, a expansão da infraestrutura para bicicletas vem sendo discutida há anos. Em 2020, a Prefeitura de Manaus anunciou a implantação de 47,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas em trechos como a avenida Senador Álvaro Maia, a avenida Brasil, a ligação até a Ponta Negra, a avenida Governador José Lindoso, conhecida como avenida das Torres, e a avenida Itaúba.
O projeto previa 24,7 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas entre a avenida Senador Álvaro Maia e o trecho da avenida Brasil até a Ponta Negra. Na avenida das Torres, o percurso informado era de 15,8 quilômetros, considerando os dois sentidos, além de quatro quilômetros de faixa recreativa. A avenida Itaúba também receberia três quilômetros de ciclofaixa voltada à recreação. (manaus.am.gov.br)
O anúncio incluía serviços como preparação do solo, aplicação de concreto, pintura, sinalização horizontal e vertical e instalação de iluminação. A proposta também contou com a participação de representantes da Federação de Ciclismo do Amazonas e de grupos de pedal durante a elaboração do plano de mobilidade, segundo a prefeitura.
Na mesma iniciativa, o município informou a existência de aproximadamente 38 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas em vias públicas, parques e praças. Também foi mencionada uma ciclorrota de 14,5 quilômetros na região central, com sinalização destinada a indicar a presença e a preferência das bicicletas.
Infraestrutura ainda é limitada
Apesar dos projetos anunciados, a rede cicloviária de Manaus ainda é pequena diante do tamanho da cidade e da extensão de sua malha viária. Um levantamento divulgado em março de 2026, com dados da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas e informações geoespaciais do OpenStreetMap coletadas entre julho de 2024 e julho de 2025, apontou 28,1 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas na capital.
O mesmo estudo colocou Manaus entre as capitais amazônicas com menor extensão de infraestrutura voltada às bicicletas. A pesquisa também indicou que a capital tinha menos de 0,5% das ruas com estrutura cicloviária. Os números mostram que a existência de trechos isolados não é suficiente para formar uma rede contínua, segura e conectada aos principais bairros, terminais, áreas comerciais e pontos de interesse.
A diferença entre os tipos de estrutura ajuda a entender o desafio. A ciclovia é uma pista exclusiva para bicicletas, separada fisicamente do tráfego de veículos. Já a ciclofaixa ocupa uma faixa da própria via e é delimitada por pintura, placas ou outros dispositivos de sinalização. A proteção oferecida ao ciclista depende, portanto, do desenho da via, da fiscalização e do respeito às regras de circulação. (portalamazonia.com)
Ponta Negra une lazer, turismo e renda
Entre os espaços mais associados ao ciclismo em Manaus está a Ponta Negra, na zona Oeste. O local reúne moradores, turistas, famílias e grupos de pedal, além de empreendedores que trabalham com aluguel de bicicletas. A atividade transforma o passeio em uma experiência acessível para pessoas que não possuem bicicleta ou que desejam conhecer a área sobre duas rodas.
Reportagem publicada em novembro de 2025 registrou a atuação de empreendedores que oferecem bicicletas para diferentes públicos na região. Um dos negócios citados mantinha uma frota de 120 bicicletas e empregava cinco funcionários. O serviço atendia crianças, adultos, famílias e turistas, mostrando como o ciclismo pode movimentar uma cadeia econômica ligada ao lazer e ao turismo local. (acritica.com)
O aluguel também aparece em bairros de Manaus. No Alvorada, o projeto Pedala Livre foi apresentado como fonte de renda familiar e como uma forma de resgatar a tradição das oficinas e dos serviços de bicicletas que marcaram o bairro em décadas anteriores. Além da locação, o projeto promove passeios, atividades e ações de integração entre os participantes.
Esse tipo de iniciativa amplia o alcance do ciclismo. A bicicleta deixa de ser apenas um equipamento esportivo e passa a funcionar como instrumento de convivência, atividade física e acesso a áreas de lazer. Para o turismo, os passeios de bicicleta podem complementar os roteiros tradicionais e oferecer uma forma diferente de conhecer a cidade.
Parintins prevê as primeiras ciclovias
No interior do estado, Parintins se prepara para incluir a bicicleta em um projeto de requalificação urbana. O Programa de Saneamento Integrado de Parintins, conhecido como Prosai Parintins, prevê a implantação das primeiras ciclovias da cidade nas áreas da Francesa e dos Palmares.
A proposta está associada à urbanização da Lagoa da Francesa, que inclui obras de drenagem, mobilidade, habitação, parques, abastecimento de água e cobertura de esgoto. As novas ciclovias fazem parte de um conjunto mais amplo de intervenções, que também contempla passeios, áreas de lazer, quadras poliesportivas, recuperação de orlas e reflorestamento.
Segundo o Governo do Amazonas, a criação dessas rotas deve oferecer uma alternativa aos ciclistas que atualmente circulam junto ao trânsito de veículos. A implantação representa uma mudança importante para a cidade porque insere a bicicleta no planejamento urbano de uma área que também tem valor paisagístico e turístico.
O caso de Parintins mostra que a infraestrutura cicloviária pode ser planejada junto com obras de saneamento, urbanização e recuperação ambiental. Quando os projetos são integrados, a ciclovia deixa de ser um trecho isolado e passa a fazer parte de um espaço público com circulação, convivência e atividades esportivas.
Interior amplia possibilidades de cicloturismo
Fora dos centros urbanos, o ciclismo também encontra espaço em trilhas, estradas vicinais, comunidades e áreas de interesse natural. Em São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, grupos locais organizam expedições de bicicleta por caminhos da região da Cabeça do Cachorro. Uma dessas atividades percorreu aproximadamente 40 quilômetros até a localidade de Camanaus, reunindo moradores, atletas, militares e apoiadores.
As experiências de ciclismo de aventura contribuem para divulgar paisagens, fortalecer a convivência comunitária e estimular o turismo em áreas que normalmente ficam fora dos roteiros convencionais. Também podem criar demanda por serviços de apoio, como alimentação, hospedagem, manutenção de bicicletas, acompanhamento de grupos e transporte de equipamentos.
Em outras partes do estado, rodovias e caminhos próximos a Manaus também são utilizados por ciclistas de estrada. A AM-070, que liga a capital a municípios como Iranduba e Manacapuru, é conhecida entre praticantes por oferecer trechos procurados para treinos e passeios. O uso de rodovias, no entanto, exige atenção redobrada, principalmente por causa do tráfego de veículos pesados, da velocidade e da ausência de separação física em grande parte do percurso.
Segurança é condição para o crescimento
A expansão do ciclismo depende de mais do que pintura no asfalto. A segurança exige rotas contínuas, cruzamentos bem sinalizados, iluminação, manutenção, fiscalização e campanhas de respeito entre os diferentes usuários das vias. Também é necessário considerar o acesso aos bairros e a conexão com outros meios de transporte.
Para quem pedala, equipamentos como capacete, luzes dianteira e traseira, colete ou roupas de alta visibilidade podem aumentar a percepção do ciclista no trânsito. Em trajetos rodoviários, a escolha de horários de menor movimento, o uso de grupos e o planejamento do percurso são medidas importantes. Essas precauções, porém, não substituem a responsabilidade do poder público de oferecer vias adequadas e dos motoristas de respeitar a distância e a prioridade previstas na legislação.
O Código de Trânsito Brasileiro estabelece regras para a circulação de bicicletas e determina que os veículos motorizados devem manter distância lateral de segurança ao ultrapassar um ciclista. Na prática, o cumprimento dessas normas depende de fiscalização permanente e de uma cultura de convivência no trânsito.
Uma rede ainda em construção
O avanço do ciclismo no Amazonas ocorre em diferentes frentes. Em Manaus, a discussão se concentra na ampliação da infraestrutura e na criação de alternativas de lazer e mobilidade. Em Parintins, novas ciclovias aparecem vinculadas a um projeto de requalificação urbana. No interior, os grupos de aventura revelam o potencial do estado para o cicloturismo e para atividades esportivas em contato com a natureza.
Os caminhos, entretanto, ainda precisam ser conectados. A existência de ciclovias em pontos específicos não garante, por si só, que a bicicleta possa ser usada com segurança para deslocamentos diários. É necessário integrar bairros, áreas comerciais, escolas, parques, orlas, terminais e equipamentos públicos.
Com planejamento, manutenção e participação dos ciclistas, a bicicleta pode contribuir para reduzir deslocamentos curtos feitos de carro ou motocicleta, ampliar o acesso ao lazer e estimular atividades econômicas ligadas ao turismo. No Amazonas, onde as cidades apresentam características geográficas e urbanas distintas, a expansão do ciclismo precisará combinar soluções para o trânsito das capitais, para as áreas ribeirinhas e para os roteiros de aventura do interior.
O cenário atual ainda é de construção, mas os projetos e iniciativas existentes indicam que o pedal ganhou novos caminhos no estado. A consolidação desse movimento dependerá da continuidade das obras, da integração das rotas e da capacidade de transformar trechos isolados em uma rede segura, acessível e útil para a população.